terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A mulher do mar (Agostinho Fortes)


Ela tem um coração que achou no chão
E tem um sorriso que tomou de Deus
Tira o mar pra dançar imaginando uma canção
E deixa na areia pés que não são seus

Dizem que a senhora já enlouqueceu
Mas que foi bela, rica, louca e muito amou
No seu mundo da lua, ri do que lhe aconteceu
E olha pro céu como quem por lá se achou

A cidade corre e some na fumaça
E só ela parece ver alguma graça
Toda gente apressada passa e é infeliz
Será que só ela tem a vida que sempre quis?

A mulher do mar vagueia
A mulher do mar
Quem não viu, vai lá na areia
Que ela é de voltar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Triste carmesim (Agostinho Fortes)


Eu sem você
Não tenho assunto
Mas sei que ainda
Estamos juntos
No pôr-do-sol
Triste carmesim
Trago as flores
Saudades sem fim

Eu sem você
Vivo a chorar
Dias sem fim
Noites sem luar
Pobre de mim
Que estou a esperar
A paz que, enfim
Virá me buscar

Você se foi
Sem mais, nem porquê
Meus olhos no mar
Aguardam lhe ver
Se a vida conduz
Sempre ao mesmo fim
Espero a luz
Que a levou de mim

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Luana (Agostinho Fortes)

Vem raio de sol
Vem bronzear meu corpo
Vem dourar os meus cabelos longos
Vem minha Luana
Me abrasa os lábios, cora minha face e ferve meus sentidos
Vem aguçar
A minha nuca, pele, pêlo, boca, seios e ouvidos
Minha Luana, estou tão linda

Vem raio de sol
Me dá a cor de um pecado
Que ninguém perdoa
A cor dos bichos
Que eu fico assim pagã mestiça à flor da pele e ávida de brasa
Minha Luana,
Eu fico aflita a te esperar sozinha nessa imensa casa
Minha Luana, seja bem vinda

Vai minha Luana
Que a cidade toda nos quer ver
Queimando feito bruxas
Foge Luana
Mal sabem eles que se a gente queima, a gente vai com os ventos
As nossas cinzas
Redemoinhos espalhando, derramando os bons momentos
Nossa alegria, nossa paixão tão proibida
Tão ilegal, tão infernal e destemida

Valiosa prata (Agostinho Fortes)


Ah,
Se minha mão tocasse a lua,
Se você quisesse que ela fosse sua
E ela coubesse na palma da mão

Quando chegasse o momento oportuno
Em que os astros desse céu noturno
Se distraíssem por qualquer razão

Eu furtaria a mais valiosa prata,
Me esconderia no meio da mata
Sob um céu vítima dessa paixão

Ah,
Quando acordei não era dia,
Não foi um sonho a minha covardia
De roubar em nome de um só coração

Arrebatei as noites de luar
Dos namorados, seresteiros,
Poetas e boêmios baderneiros
Pra um belo dia vir a maldição

E então,
O sol que sempre vinha atrás da sua amada
Ao perceber que fora sequestrada,
Nunca mais raiou pra gente não

Ah meu bem,
E se você ainda quiser a lua
Saiba ... que quanto mais longe, mais é sua
E mais perto fica do seu coração

A rosa do carnaval (Agostinho Fortes)


Essa boca mentirosa
Da Rosa, da Rosa
Sempre tão cheia de prosa
Que rosa, que rosa

Diz que eu sou o tal
Único e primeiro
Mas pra não levar a mal
Quando chega fevereiro

É que o carnaval
É a primavera da Rosa
Flagrei sambando no jornal
Seminua, a mentirosa

Chego até a passar mal
Vendo sua maldade na avenida
Distribuindo em poucas horas
Todos os beijos que lhe dei na vida

Essa boca caridosa
Da Rosa, da Rosa
Quarta-feira vem dengosa
Me goza, me goza