Você sabe cuspir
No prato que você
Se lambuza
Você briga comigo
Mas ri pro meu umbigo
E abusa
Sou mulher sem palavra
E a sua palavra
Eu contesto
Eu também não presto
E é por isso que eu
Te detesto
Vem e me tira a blusa
Me trai e me acusa
Que eu atesto
Esse amor sem vergonha
Que nem miserável sonha
Me aquece
Quando rezo, eu misturo
Meus pecados e os seus
Numa prece
Sou igualzinha a você
E por isso você
Me merece
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Pobre Maria (Agostinho Fortes)
Pobre Maria
que perdeu seu rumo
Seus sonhos e
seu prumo
Quando enfim
perdeu João
Pra uma outra
Maria
Que agora
dona da alegria
Explode de
paixão
A alegria
assim corria
De moça em
moça escorria
De boca em
boca sem parar
João transferia
seu amor
E deixava uma
dor
Pra outra se
lembrar
João é qual
um cirurgião
De delicadas
mãos
Que com calma
e fundo
Toca manso um
coração
Arrancando a
veia então
Do lugar mais
profundo
João é qual
um peão
Bravio de
brutas mãos
Quando uma
alma laça
Num só golpe
exorciza,
Liberta e
escraviza
Multiplicando
a sua raça
João prometeu
tantos mundos
Com seu
coração sem fundos
E sua lábia
de ladrão
Por onde
agora anda João?
Pois nem mais
no sonho de Maria
A gente vê
mais não
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Joana cigana (Agostinho Fortes)
Acorda Joana
Que já é dia
Vem cá pra fora
Ver tanta alegria
A sua beleza
Agita os olhos
Os mares, os copos
Derrama o vinho
Passeia Joana
À beira-mar
Molhando os pés
Desfaz seu caminho
Se pinta Joana
Que já é noite
E a noite é só luzes
E a lua lhe quer
Voa Joana
Que ninguém alcança
Mas todos desejam
Joana mulher
Ás vezes eu fico
A ver navios
Sem ver Joana
Mais de uma semana
Volta Joana
Volta Joana
Pro sol levantar
E a noite cair
Não sei por que
Joana não ri
Por quem ela chora
Por que é tão só
Mas se ela um dia
Olhasse pra mim
Veria que eu
Também sou só assim
Some Joana
Num brejo sombrio
Num sopro de vento
Na queda de um rio
Joana cigana
Não é de ninguém
É só dos poetas
E minha também
Que já é dia
Vem cá pra fora
Ver tanta alegria
A sua beleza
Agita os olhos
Os mares, os copos
Derrama o vinho
Passeia Joana
À beira-mar
Molhando os pés
Desfaz seu caminho
Se pinta Joana
Que já é noite
E a noite é só luzes
E a lua lhe quer
Voa Joana
Que ninguém alcança
Mas todos desejam
Joana mulher
Ás vezes eu fico
A ver navios
Sem ver Joana
Mais de uma semana
Volta Joana
Volta Joana
Pro sol levantar
E a noite cair
Não sei por que
Joana não ri
Por quem ela chora
Por que é tão só
Mas se ela um dia
Olhasse pra mim
Veria que eu
Também sou só assim
Some Joana
Num brejo sombrio
Num sopro de vento
Na queda de um rio
Joana cigana
Não é de ninguém
É só dos poetas
E minha também
quarta-feira, 18 de março de 2015
Palácio de lona (Agostinho Fortes)
Poesia,
magia, alegria e acrobatas pelo ar
Um dia
naquela cidade eu vi
Essa trupe
chegar
Mambembe,
que loucos
E que foram
aos poucos
Erguendo
Um palácio
de lona
Tremendo
Quem diria
um dia a alegria acampasse por aqui
Mesmo o
velho ranzinza com seu terno cinza
Pediu pra
repetir
O canto dos
loucos
Que foram
aos poucos
Erguendo
Um palco de
sonhos
Tremendo
A moça feia
que só se escondia e vivia a chorar
Ouvindo
falar dos bandidos vadios
Apareceu por
lá
Mambembe
fugido
Fera e
rugido
Sedento
E o sangue das
virgens
Fervendo
A mal falada
e mais desejada pelos homens de lá
Ao ver o
palhaço aprontando, caindo de bunda
Resolveu se
casar
No picadeiro
Ao som de um
pandeiro
Bebendo
Era a noiva
mais séria
Do elenco
E a cotovia,
que eu nunca via, veio sobrevoar
O sério
prefeito, mesmo sem jeito
Se pôs a
dançar
E toda gente
sofrida
Que apanha
da vida
Sorrindo
A meninada
assanhada
Curtindo
O rico e o
pobre juntaram seus cobres pro circo ficar
Mas todos
sabem que todo artista
Tem que se
espalhar
Trupe fugida
Na estrada perdida
Sem lona
Sem plateia,
pedindo
Caronadomingo, 1 de março de 2015
As duas (Agostinho Fortes)
Se uma só quis beijar
A outra se guardou pura
E condenou com o olhar
Qualquer loucura
Se uma perdeu a conta
A outra foi mais precisa
Sonhou sempre em se casar
Antes dos trinta
Se uma foi com os bandidos
Pelas ruas da agonia
A outra quis seu herói
Na fantasia
Enquanto uma se deu toda
E seu dorso se contorcia
A outra se recolheu
Pra um novo dia
E se as duas vão se cruzar
Cada olhar vai reconhecer
Na tristeza do outro olhar
O seu sofrer
E se uma quiser chorar
O vazio que foi uma vida
Pode preencher o da outra
Nunca vivida
Hoje uma ainda sonha
Espera o amor da vida
A outra não tem vergonha
E gosta de margarita
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