terça-feira, 5 de setembro de 2017

Seus cuidados (Agostinho Fortes)

Ela esbanja tempo
Enquanto eu cato as horas
Que ela displicente
Vai jogando fora

Enche de aventuras
O meu velho coração
Que bate fraco e lento
Na cadência da solidão

Esnoba a minha alegria
Sorrindo tão juvenil
Lembra dos meus remédios
Mas vive com o corpo febril

Gosta de me ver contar
Sobre as travessias no mar
Sobre épicas batalhas
Que travei no meu caminhar

Amanhã não terei seus cuidados
Ela disse que vai se casar
Vai penar, vai sorrir, vai ter filhos
E depois vai também me contar

Joana, diz pro teu moço
Pra ele não se enciumar
Que eu já não tenho cobiça
Só a minha preguiça
Pra te dar

Joana, por onde andas?
Eu quero tanto te olhar
E então na chama da vida
Que arde em teus olhos
Me esquentar

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Andarilho (Agostinho Fortes)

Já andei por tantos mundos
Já vi mundos maltratados
Miseráveis e imundos
Entretanto delicados
Com amores mais profundos
Do que aqui por esses lados

Vi mulheres que amavam
Por palácios e dourados
E beijavam e velavam
Maridos envenenados
Vi o amor mais verdadeiro
Nos menos afortunados

Vi o suplício e a corrente
Vi gente vendendo gente
Vi um escravo alforriado
Retornando tão contente
Pro engenho atordoado
Não quer mais seguir em frente

Vi a igreja espalhando
Muitas missas indecentes
Lindas bruxas vi queimando
Vi no inferno inocentes
Vi uma fé inexplicada
No olhar dos mais carentes

Vi no repicar dos sinos
No soar de mil trombetas
Vi no rufo dos tambores
No golpe das baionetas
Consagrada a guerra santa
E o terror pelo planeta

Vi meninos que sonhavam
De arma empunhada
Virar fogos de artifício
Alumiando a madrugada
Explodindo em sacrifício
Pra no céu ter namoradas

Vou cansando pela trilha
Meu passeio me redime
No meu radinho de pilha
Vou ouvindo mais um crime
Entre a cruz e a espada
Subo aos céus num passo firme

Vejo fogos de artifício
Vejo bruxa alforriada
Vejo escravos de dourado
Com a vista já cansada
Subo aos céus embriagado
Saio enfim sutil da estrada

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Me diz (Agostinho Fortes)

Diz quem foi que fez esse dia a dia
E inventou o tal do despertador
Diz pra que toda essa correria
Que não tenho tempo pro amor
Diz quem foi que inventou toda essa lida
E esqueceu de inspirar o trovador

Me diz, me diz
Me explica por favor
Como é que faz pro nosso amor
Nunca mais acabar

Diz quem foi que fez essa gente rica
E esqueceu do pobre trabalhador
Diz como é que tem água na piscina
Se lá no açude já secou
Diz quem foi que curou na medicina
O primeiro doutor que se formou

Me diz, me diz
Me explica por favor
Como é que faz pro nosso amor
Nunca mais acabar

Diz quem é que na vida pôs os trilhos
Que o meu vagão descarrilhou
Quem contou meu futuro à cartomante
Que o meu casamento ela errou
Afirmou o dia da minha morte
Que há muito tempo já passou

Me diz, me diz
Me explica por favor
Como é que faz pro nosso amor
Nunca mais acabar

Diz quem é que escolheu a cor do mar
E os seus olhos da mesma cor pintou
Diz onde é que o vento faz a curva
Que já passou reto e não parou
Se o amor é uma coisa que acaba
Ou vai virando sempre um novo amor

Me diz, me diz
Me conta por favor
Qual o segredo de um amor
Que nunca há de acabar

Diz pra que tanta tecnologia
Você vidrou no computador
Mas só eu que esbanjo alegria
E posso chorar a minha dor
E só eu que posso morrer na vida
E sou filho de Deus Nosso Senhor

Me diz, me diz
Me beija por favor
Pra eu sentir que o nosso amor
Nunca vai acabar

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Nosso fim (Agostinho Fortes)

Eu sei que ela me amou
E o quanto insistiu
As vezes que ela orou
E as vezes que desistiu

Eu sei que ela revidou
Com outro me confundiu
E a gente se mereceu
E a gente fez que não viu

Eu sei que já me enterrou
Nalgum terreno baldio
E lá o mato cresceu
Com cheiro de amor vadio
E é lindo, que lindo

De cara ela se entregou
E aos poucos ela partiu
Por tantas me perdoou
Por outras ela fingiu

Eu sei que já me enterrou
Nalgum canto de jardim
E lá brotou uma flor
Zelosa do nosso fim
E é linda, que linda

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Teu vigia (Agostinho Fortes)

Quando eu tiver enfim que partir
Quando eu vir minha hora chegar
Dá-me um sorriso manso
Sussurra um segredo
Que eu possa comigo levar

Quando eu não estiver mais aqui
Não quero te ver sempre a chorar
Quero um luto breve
E um pranto leve
Que a brisa possa levar

Quando a alegria voltar em ti
Quando um sorriso te escapulir
Serei o teu vigia
Noite afora
Do meu ciúme hei de rir

Lá no recanto do peito teu
Guarda bem firme o meu lugar
E se algum maldito
Te faltar respeito
O sujeito, eu vou assombrar

Eu juro que sabia
Que uma só vida
Era curta para te amar