quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Vem (Agostinho Fortes)

Eu lhe dei rosas e belos vestidos
Fiz poesia falando da gente
Fiz um disco para os seus ouvidos
Dei uma camisola transparente

Vem, vem, vem, vem

Murcharam as rosas, arranhou o disco
Você não quer ouvir falar da gente
E diz que eu sou um cara de alto risco
Que levo uma vida indecente

Larguei bilhar e o carteado
E a mulata que mora em frente
Por uma vida pra sempre ao seu lado
Prometo nunca mais ficar contente

Vem, vem, vem, vem

Mas vem logo que a vida passa
Impiedosa ela arrasa a gente
Enquanto no peito bater um samba
Eu sei que posso lhe fazer contente

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Estrela (Agostinho Fortes)

Quando a vejo na televisão
O meu coração se inflama
Parece que ela me chama

Atento à cena, não perco o momento
Nenhum movimento da dama
Prevejo a sua trama

Ela é só minha na minha ideia
E no coração
Não sei por que ela encena
Ser da multidão

Beija o galã como se eu não estivesse
Tomando conta da novela
Me trai sem me dar trela

Me encara e tira o vestido
Esboça um sorriso e me leva a paz
Pra ir com um outro rapaz

Ela é famosa, é estrela
Ela é demais
Será que ela me vê
Vendo tudo que ela faz?

Às vezes é má, às vezes megera
Às vezes até exagera
E mata um personagem

Faz mil caras e bocas, tem mil corações
Finge a voz quando canta
E meus males espanta

Ela me inferniza, me atiça
E não tá nem aí
Ela me tira a saúde
E parte pra Hollywood
Enfim

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Você me merece (Agostinho Fortes)

Você sabe cuspir
No prato que você
Se lambuza

Você briga comigo
Mas ri pro meu umbigo
E abusa

Sou mulher sem palavra
E a sua palavra
Eu contesto

Eu também não presto
E é por isso que eu
Te detesto

Vem e me tira a blusa
Me trai e me acusa
Que eu atesto

Esse amor sem vergonha
Que nem miserável sonha
Me aquece

Quando rezo, eu misturo
Meus pecados e os seus
Numa prece

Sou igualzinha a você
E por isso você
Me merece




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Pobre Maria (Agostinho Fortes)

Pobre Maria que perdeu seu rumo
Seus sonhos e seu prumo
Quando enfim perdeu João
Pra uma outra Maria
Que agora dona da alegria
Explode de paixão

A alegria assim corria
De moça em moça escorria
De boca em boca sem parar
João transferia seu amor
E deixava uma dor
Pra outra se lembrar

João é qual um cirurgião
De delicadas mãos
Que com calma e fundo
Toca manso um coração
Arrancando a veia então
Do lugar mais profundo

João é qual um peão
Bravio de brutas mãos
Quando uma alma laça
Num só golpe exorciza,
Liberta e escraviza
Multiplicando a sua raça

João prometeu tantos mundos
Com seu coração sem fundos
E sua lábia de ladrão
Por onde agora anda João?
Pois nem mais no sonho de Maria
A gente vê mais não

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Joana cigana (Agostinho Fortes)

Acorda Joana
Que já é dia
Vem cá pra fora
Ver tanta alegria

A sua beleza
Agita os olhos
Os mares, os copos
Derrama o vinho

Passeia Joana
À beira-mar
Molhando os pés
Desfaz seu caminho

Se pinta Joana
Que já é noite
E a noite é só luzes
E a lua lhe quer

Voa Joana
Que ninguém alcança
Mas todos desejam
Joana mulher

Ás vezes eu fico
A ver navios
Sem ver Joana
Mais de uma semana

Volta Joana
Volta Joana
Pro sol levantar
E a noite cair

Não sei por que
Joana não ri
Por quem ela chora
Por que é tão só

Mas se ela um dia
Olhasse pra mim
Veria que eu
Também sou só assim

Some Joana
Num brejo sombrio
Num sopro de vento
Na queda de um rio

Joana cigana
Não é de ninguém
É só dos poetas
E minha também