sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Grito adiado e abafado

Por ora silenciarei qualquer desejo tolo de me alegrar
Recolherei-me ao quarto bem mais cedo do que sempre costumo deitar

Adiarei meus devaneios e meus gritos loucos eu não vou gritar
E em cada prece minha, hei de recolher a fé que nunca esteve lá

Mas quando for chegada a hora, bem perto de ti, eu ousarei chegar
E o peso de toda a lida, lançarei no verde claro de algum mar

E aquele grito adiado e abafado, com descuido, há de se espalhar
E a cidade comovida escutando acordará pra vida e a mim se juntará

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Mais uma ode ao Rio

Fui dar um passeio legal
Um devaneio bem alto astral
Encontrei uns amigos
Falamos muito mal do Cabral
E de alguns inimigos

Foi um passeio legal
Maldizemos os tempos modernos
Rolaram alguns debates eternos
Desconversamos e tal
E criticaram meu terno

Rememoramos os velhos tempos
Quando havia muitos talentos
Cada um se gabou do seu rebento
Desconversamos e tal
Então dei prosseguimento

Cheguei ao Arpoador
Aquela pedra tem princípios
De lá olhei pros edifícios
E o meu Rio ainda é muito legal
Mistura amor com sacrifícios

É hora de voltar à casa
O tempo sem pestanejar sempre passa
E eu passo por alguma praça
Como é tão lindo esse Rio
Faça calor ou um pouco de frio

Voltar à casa
Andar no Rio é uma doce dor
Cai exuberante de açoite
Nos surpreendendo, a noite
Vou orar pro Nosso Senhor
Pra proteger meu Rio
Dormir sob os braços do Redentor
Essa noite tá fazendo um frio
Boa noite, amor
Vê se não puxa o meu cobertor

Astronauta

O que vê o astronauta
Ao ver a terra girar veloz?
Entende que não há diferença
Nenhuma entre nós

Territórios se mesclam
Onde estão as fronteiras?
Daqui de cima
Tanta coisa é besteira

Tantas festas e um só sorriso
Tantas frestas e um só olhar
A boca de quem não come
É a mesma do caviar

E girando veloz
A terra faz uma sutura
Cicatrizando distâncias
Aglutinando culturas

E a visão do astronauta
Por fim já tão louca
Enfim já tão parca e rouca
Vê uma coisa só
Será que ele volta
Ou se entrega as estrelas
Gentilmente em pó

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Obra-prima

Brotando do solo, o concreto
Rompendo as nuvens furiosamente e insolente
Da janela, espio dia a dia mais um teto
Cobrindo paisagens bem levemente e brevemente

Da minha fresta, já não tenho o que ver
Só ferro subindo feito trepadeiras
Raízes escapando do solo com sede
Brota um arranha-céu onde só havia figueiras

Trapezistas me oferecem um show
Pendulam e agarram-se ao céu
E o vizinho incomodado
Que se mude para o prédio ao lado

E eu sempre tonto
Só queria dormir
E acordar com tudo pronto
Mas não vou desistir

Vi aos poucos a cidade surgindo em flor
Acordei já com muita idade
Já era tarde
Do meu prédio, por fim
Agora vejo outro da mesma cor

À Primeira Vista

Quando ela olhou pra mim, eu estava muito triste sem me aguentar
E me olhou com calma e tanta ternura que me fez chorar
E lançou-me um sorriso puro como quem está a me compreender
E os seus olhos, em uma bravata, convidaram-me então a viver

Quem me diria que seria uma eterna estória e de muito amor
Nascida de outras vidas tantas e que se ergueria ante qualquer torpor
E a nossa eternidade nos traz a saudade de quem já partiu
E por mais que os dias passem, fica o primeiro em que ela me viu